sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

 

        Mãos amarradas e a 43 minutos e vinte um segundos atrás, eu, devia ter seguido outro rumo. Mas meu coração palpita caleidoscópios de dinamite que explodem e explodem e explodem. E todo dia eu morro mais e todo dia eu te suícido no meu poço de tristeza que te afoga      de  va  gar.
        O kraken que abraça seu barco, leva-a-ti ao fundo do mar. Aqui embaixo é tão escuro, você diz. Aqui embaixo é tão vazio, você sente.  E mil desses dias podem se passar do calendário romano moderno, o maldito polvo infernal continuará a sentir que, aqui embaixo, continua tão escuro e tão vazio. Essa vontade de largar a vítima, de deixá-la nadar até a superfície, cria uma pergunta. Quem é a vítima? Minha metade monstro ou minha metade diabo?


        Frágil, eu, derramo o pranto de ontem e me embebedo nessas lágrimas sabor fracasso que sou.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Le cirque

    Tenho quase certeza de que ando em pernas de pau desde o meu nascimento. Papai vira-e-mexe brinca que eu saí do útero já com um par de pernetas na mão. Minha mãe nunca desejou que eu seguisse os largos passos de palhaço do papai, acho que isso mudou a direção para a qual meus pés queriam crescer. Dezenove anos de piruetas em picadeiros e sempre me mative mais alto do que baixo. Usava as pernas de pau em todos os momentos da minha vida. Passeios, filmes e até na escola eu fazia questão de andar sobre as pernas de louva-deus.
     Só que o destino mudou meu trajeto em um espetáculo de quarta-feira para possuidores de dentes de leite. A noite tinha um brilho meio obscuro, algo meio neblinado. Ousado o acrobata terminou um número rotineiro e já era a minha vez. Lá vem o cara das pernas de pau, escutei uma voz narrar da platéia para as crianças. Todos ergueram seus pescoços, as bocas ficavam entreabertas. Ao longo da carreira já estava acostumado a ver os rostos dessa forma, mas vez outra me encantava por alguma mulher de platéia. Devia ser só um encanto passageiro, logo meus olhos continuariam a correr pelo resto das cabeças do público.
    Não tenho certeza se devo culpar a música, a luz ou a bebida de horas atrás. Mas aquele encanto de traços indígenas se levantou e veio até o palco sem ser chamada, fixou aquelas pérolas negras nos meus olhos cansados e veio girando em um balé delicado. Trotou e parou adjacente aos meus pés, ou as minhas pernas, ou as minhas extensões de pernas. E ali, paradinha tirou da garganta um serrote. Uivei que soltassem os leões, desesperei por completo, mesmo sabendo que os leões ainda não estavam prontos, mudei o discurso e pedi por clemência, por piedade. Escutei um ranger, tremi pelas pernas, busquei um ponto de equilíbrio entra o serra-serra.
    Acordei da minha queda 29 anos depois, hoje ando de cadeira de rodas, por que uma bailarina quebrou minhas pernas?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Tempos de guerra

Seu brilho reluz ao sol, feita de puro plástico. A lâmina confiável do disse-me-disse. E a partir de agora, desembanhando essa arma fatal sou puro saber. Me torno juíz da vida. Meu passado de pecados e de furto confessado de nada importará. Sou pureza total, minha espada é de plástico e meu cavalo de vassoura.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

do início de março

    Eu viajo enquanto os outros falam, imagino, invento e recrio a realidade. Volto num estalo e faço um gesto afirmativo com a cabeça. Digo que sim, mas na verdade eu tenho tanta coisa para dizer. Permaneço calado para entrar novamente no meu transe.
     Sou maluco, doido, psico-louco de um emaranhado de astros que brilham no céu. Luzes essas que assinam meu atestado de apaixonado intenso, de pisciano puro sangue.
     Sou de peixes, de brasília e nas horas vagas sou aspirante de artista.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O dia em que enterrei um amigo

    E naquele nosso último momento, o do qual você não estava presente, atirei rosas no buraco, derramei lágrimas e já cansado de cavar, tapei nosso vulcão. Cresci uns 200 anos, decidi gastar menos sorriso, menos dinheiro. Hoje a última lua da matilha tombou, congelando o resto do domingo ensolarado. Virei lobo sem líder, sem presa, sem conselheiro, parte minha se enterrou junto contigo.

Um escritor vagabundo jamais devia voltar a escrever

    Sete e trinta e dois da manhã, a fome matinal deixava um gosto áspero pela boca. A janela assobiava para o vai-e-vem dançante da cortina. Alguns passos descalços por cima de todo o jornal, uma velha máquina de escrever voltava a incomodar a prole dos vizinhos. O amargo era substituído pelo café velho e exageradamente adoçicado.
    Ali insistia em manter uma expressão cabisbaixa, juntamente com uma barba mal cuidada. Respirava lentamente, uivava baixinho quando a dor nos pés o incomodava. Passava maior parte do tempo sentado com a cabeça levemente inclinada para a direita e com os olhos hora entrefechados-entreabertos. Sonhava maravilhas e por alguns segundos se sentia fora daquele quarto branco.
    Desejava uma águardente para calar o estômago, desejava bater teclas para calar o coração. Mas agora, de olhos arregalados totalmente abertos, recordava que água não mata fome e nem palavras, coração.
 

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