Tenho quase certeza de que ando em pernas de pau desde o meu nascimento. Papai vira-e-mexe brinca que eu saí do útero já com um par de pernetas na mão. Minha mãe nunca desejou que eu seguisse os largos passos de palhaço do papai, acho que isso mudou a direção para a qual meus pés queriam crescer. Dezenove anos de piruetas em picadeiros e sempre me mative mais alto do que baixo. Usava as pernas de pau em todos os momentos da minha vida. Passeios, filmes e até na escola eu fazia questão de andar sobre as pernas de louva-deus.
Só que o destino mudou meu trajeto em um espetáculo de quarta-feira para possuidores de dentes de leite. A noite tinha um brilho meio obscuro, algo meio neblinado. Ousado o acrobata terminou um número rotineiro e já era a minha vez. Lá vem o cara das pernas de pau, escutei uma voz narrar da platéia para as crianças. Todos ergueram seus pescoços, as bocas ficavam entreabertas. Ao longo da carreira já estava acostumado a ver os rostos dessa forma, mas vez outra me encantava por alguma mulher de platéia. Devia ser só um encanto passageiro, logo meus olhos continuariam a correr pelo resto das cabeças do público.
Não tenho certeza se devo culpar a música, a luz ou a bebida de horas atrás. Mas aquele encanto de traços indígenas se levantou e veio até o palco sem ser chamada, fixou aquelas pérolas negras nos meus olhos cansados e veio girando em um balé delicado. Trotou e parou adjacente aos meus pés, ou as minhas pernas, ou as minhas extensões de pernas. E ali, paradinha tirou da garganta um serrote. Uivei que soltassem os leões, desesperei por completo, mesmo sabendo que os leões ainda não estavam prontos, mudei o discurso e pedi por clemência, por piedade. Escutei um ranger, tremi pelas pernas, busquei um ponto de equilíbrio entra o serra-serra.
Acordei da minha queda 29 anos depois, hoje ando de cadeira de rodas, por que uma bailarina quebrou minhas pernas?
Não tenho certeza se devo culpar a música, a luz ou a bebida de horas atrás. Mas aquele encanto de traços indígenas se levantou e veio até o palco sem ser chamada, fixou aquelas pérolas negras nos meus olhos cansados e veio girando em um balé delicado. Trotou e parou adjacente aos meus pés, ou as minhas pernas, ou as minhas extensões de pernas. E ali, paradinha tirou da garganta um serrote. Uivei que soltassem os leões, desesperei por completo, mesmo sabendo que os leões ainda não estavam prontos, mudei o discurso e pedi por clemência, por piedade. Escutei um ranger, tremi pelas pernas, busquei um ponto de equilíbrio entra o serra-serra.
Acordei da minha queda 29 anos depois, hoje ando de cadeira de rodas, por que uma bailarina quebrou minhas pernas?